Brasileiros e Brasileiras! – cap.2

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 2

Polícia

A viatura da polícia militar seguiu preguiçosa fazendo seu trabalho de ronda na região do Jardim Ângela, zona Sul de São Paulo.

Dirigia o carro o soldado Jorge Almeida, rapaz de 22 anos que entrara para a corporação há um ano e meio, muito mais por falta de opções do que por vocação. Situação comum no presente governo Sarney*.

Sua família declinou financeiramente nos últimos anos e parecia uma opção honesta e viável trabalhar na polícia. O dinheiro, apesar de pouco, era certo, no entanto ele não imaginava que seria tão complicado. O universo da polícia militar parecia muito o mundo da bandidagem, e ele se achava um homem bom, por isso o último ano fora de fortes conflitos na cabeça de Almeida.

Apesar do trabalho noturno e do calor de dezembro, se sentia desperto. O clima tensamente natural do trabalho petrificava seus dedos no volante. Há seis meses nas ruas, ainda não tinha se acostumado com essa vida. A responsabilidade e os perigos da noite causavam certo medo no rapaz.

Tinha um parceiro difícil. O soldado Teles era um homem de 44 anos sem vocação para nada e que ingressara na Polícia Militar para se envolver em esquemas de corrupção mesmo, além disso gostava do poder que o revolver lhe conferia.

Almeida guiava o carro atento às notícias do rádio sobre o debate entre os presidenciáveis Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello.

– Você viu, Teles! Acho que o Lula vai ganhar… Teles! Você está dormindo, cara!

Teles acorda assustado sentindo o coração na boca.

– Oi! É ocorrência?!

– Não, cara. Estou falando com você… Hoje é o debate na televisão entre o Lula e o Collor.

– Ah, Almeida… Vai tomar no cu! Estou morrendo de sono, porra!

– Cara, presidente novo! As coisas vão mudar. Não quer saber o que vai acontecer?

– Olha aqui! Estou trabalhando desde ontem num bico e quero que o presidente vá pra puta que pariu! Não mexendo no meu bolso, quero que o resto se foda!

Meio contrariado, mas persistente, o rapaz ainda insiste no diálogo.

– Teles, como é esse negócio de fazer bico?

Vendo que seu mal-humor era inútil para fazer obter um descanso do rapaz, resolveu responder.

– É assim, você fica lá na festa vigiando, revistando, ouve um som legal, dá em cima da mulherada que fica querendo entrar de graça e ganha melhor que aqui.

– Sério!? Responde o rapaz um tanto empolgado com a questão do dinheiro.

– Claro! Você acha que eu sustento duas famílias matando vagabundo no Jardim Ângela?

– Eu não sabia que você teve duas esposas.

– Eu tive três. É que, com a última, eu não casei.

– Você só juntou?

– Não… Ainda sou casado com a segunda.

– Ah!…

A viatura seguia uma avenida estreita repleta de casas mal-acabadas a sua beira e becos que conduzem ao universo paralelo das favelas da região.

A única coisa que destoava no cenário de pequenas edificações era uma fábrica decadente que ostentava uma velha opulência que, obviamente, se foi há tempos. Isso chamou atenção dos policias

– Ah! Olha aí essa fábrica. Metalmax – disse Teles com certo desânimo – Eu quase trabalhei aí… Como fui besta. Podia estar ganhado uma grana…

– Acho que não, Teles. Ela está quebrando.

– Sério!?

– É, sim. Eu tenho um amigo da civil investigando um esquema de tráfico de cocaína envolvendo o dono. O doutor Max.

– Ah! Isso eu sei. Fiz muito esquema com o velho – disse isso aos risos – quem é esse seu amigo da civil? É investigador?

– Não, é agente.

– Ah!…

– O quê?

– Motorista de viatura – riu mais ainda depois dessa – investigando tráfico de cocaína na sala de xérox ou fazendo cafezinho para o delegado?

– Vai tomar no cu, Teles! – o rapaz se ofendeu pelo amigo, mas sabia que o debate seria em vão. Civis e militares raramente nutriam boas relações.

Após retomar o fôlego, Teles resolveu abafar o caso.

– Bom, depois dessa, se você me der licença, eu vou voltar a dormir.

No momento em que Teles se aninhava para o sono, Almeida recebeu um chamado da central sobre um caso de suicídio no meio da favela.

– Acorda aí, caralho! Um chamado de suicídio!

– Puta que pariu! Vai se matar na casa do caralho!

Leia o capítulo 3 – clique aqui

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