Brasileiros e Brasileiras! – cap.3

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 3

Metalmax

O rapaz caminhava pensativamente em direção à fábrica onde trabalhava. Ainda refletia sobre as palavras do pastor que ecoavam em sua mente: “Adore a ele que mora no céu e cuida de você!”.

Quando chegou aos portões da firma, ficou tenso, hesitou um instante, mas entrou como se se entregasse à danação eterna.

No relógio de ponto, bateu seu cartão e conferiu as informações: 20h42min – 14/12/1989. Isso já era um hábito comum. O patrão gostava de errar para economizar na folha de pagamento.

Ele adentrou ao galpão. Vislumbrou as divisórias das seções, sentiu o calor da noite que era potencializado pelas máquinas e caldeiras que emanavam o bafo quente num ronronar contínuo e desencorajador de dragão que dorme, mas que voltaria a cuspir em breve depois da pausa para o “jantar”, isto é, para quem tinha algo mais elaborado em sua marmita de alumínio.

Como todos, ele levou sua comida ao velho aparelho de banho-maria. Hoje, sua situação estava difícil. Era só arroz integral e duas lingüiças. Tudo muito seco e sem graça. Sentia certo desânimo, mas sabia que, quando a fome apertar, se sentiria melhor com seus recursos parcos.

Em seguida, foi ao vestiário trocar suas roupas de homem comum pelas de guerra: camiseta regata, calça jeans e um boné escrito “Ramones”, todos manchados de graxa.

Naquela noite, o clima da metalúrgica era pesado e os funcionários trabalhavam preocupados com seus próprios destinos. O fim dos anos 80 foram dias difíceis em todos os cantos do Brasil. Em São Paulo não era diferente.

Na fábrica, não havia expediente de madrugada, mas nos últimos meses, houve um grande atraso na produção provocado por uma greve de funcionários que, por sua vez, já estava fartos dos salários pagos em atraso há quase seis meses.

Se a Metalmax não era o melhor lugar para se trabalhar, havia em contrapartida o problema do desemprego generalizado no país. Por esse motivo suportavam a pressão.

A fábrica era situada em uma região com altos índices de criminalidade e a decadência de suas edificações já dava uma ideia dos problemas financeiros da empresa e, principalmente, a situação do seu dono: o “Doutor” Max.

Maximiliano de Jesus fora um empresário muito próspero até meados dos anos 80.

Ele sustentava a ideia de que seu pai era espanhol, no entanto não fazia ideia de quem era ele. A mãe era alagoana, mas essa origem ele preferia não comentar.

O “doutor Max”, como gostava de ser chamado, apesar de não ter formação para tal, iniciou sua carreira com considerável êxito no ano de 1976 quando comprou uma pequena oficina metalúrgica caindo aos pedaços da qual era funcionário.

Demonstrava muito tino para os negócios e, principalmente, muita ambição. O resultado foi a construção de sua fábrica de peças automotivas, a Metalmax (trocadilho ridículo que ele achava o máximo), além de outras conquistas como sua bela casa no Morumbi, um sítio em Cotia, uma casa enorme na orla do Guarujá e, finalmente, sua grande paixão: carros antigos, reformados por ele mesmo.

Junto ao dinheiro, veio a notoriedade, graças à notoriedade, vieram os casamentos, afinal sua aparência e modos não ajudavam muito.

Foram dois casamentos em 15 anos e, na cabeça do doutor, seus filhos, que somavam seis das duas uniões, seriam a prova viva do seu sucesso e abundância. Não foram…

O talento para projetar eixos, pistões e afins não foi suficiente para suportar sua vida boêmia.

Paralelamente à família e ao trabalho, surgiu uma rotina de noitadas e festas fartas regadas a muita bebida, prostitutas caras e cocaína. Esta última tornou mais presente em sua vida do que qualquer outra coisa.

Os difíceis anos 80 passavam levando boa parte do patrimônio do doutor sem que ele tivesse se dado conta disso. Já os vindouros anos 90, estes não iriam perdoá-lo.

A fábrica tornara-se um lugar hostil a partir do momento em que o dinheiro começou a faltar. E, nos últimos tempos, a situação agravou-se. Obviamente, quem mais sofreu com isso foram os funcionários que, sem saber, sustentavam as necessidades, as extravagâncias e o vício do patrão.

Ele avançara tanto na dependência que a empresa não era mais seu foco. Já não tinha mais o pudor de cheirar o pó em locais reservados. Todos os funcionários já haviam presenciado a cena.

No entanto ele não era mal visto por todos. Havia na empresa quem se beneficiasse direta ou indiretamente do comportamento do patrão. Dentre elas, Maria Lúcia, ou somente Lúcia, como gostava de ser chamada. Era ela a principal articuladora das finanças da fábrica. Era a “gerente financeira” da empresa e secretária pessoal do doutor.

Lúcia mantinha a fábrica em funcionamento com muito esforço. Não que se importasse tanto com a firma. Era amante do doutor e usava muito bem seu belo corpo de 27 anos para persuadir o chefe, que, a essa altura sentia aos 51 o peso dos 80.

Em poucos meses, a estagiária convencera o patrão de sua competência.

Não por acaso, prosperou apesar da visível decadência da firma. Controlava o dinheiro de forma a garantir as necessidades do doutor, seu salário (e um tanto mais que ele não precisava saber), garantia os materiais da produção e pagava alguns chefes da fábrica para tentar conter as paralisações. Todavia, nos últimos meses, por conta da inflação colossal da época e da má gestão financeira, não havia recursos para o resto dos funcionários que eram pagos “ao seu tempo”, como ela costumava dizer…

Naquela noite, a fábrica trabalhava e Lúcia tentava dormir enquanto o velho Max roncava.

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