Brasileiros e Brasileiras! – cap.4

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 4

Favela

Os policiais Almeida e Teles subiram o morro de uma favela, guiaram a viatura o quanto foi possível e, em determinado ponto, encontraram outras cinco viaturas.

Foram obrigados a estacionar ali e continuar o trajeto a pé, pois não era possível transitar com os veículos pelas estreitas vielas até o ponto do morro onde ocorrera o suposto suicídio.

Almeida tinha a sensação de que eram vigiados e sentia um pouco de medo. Os outros onze policiais, já acostumados, caminhavam naturalmente pouco concentrados com a operação.

Teles, sentindo a apreensão do parceiro, tentava tranquilizá-lo:

− Fica frio, Almeida, eles já sabem da nossa presença. Claro, em outras circunstâncias, é bom não chagar tão longe.

Encontraram o barraco facilmente por causa do forte cheiro exalado pela decomposição do defunto.

Dois policiais ficaram na porta contendo os poucos curiosos e os outros entraram. Havia um interruptor pendurado numa fiação clandestina. Quando acenderam a luz, ficaram chocados por alguns instantes com a cena.

Era um homem negro de cerca de 1,90m de altura. Estava pendurado pelo pescoço. Como devia pesar uns 90kg, a disposição da cabeça totalmente inclinada na horizontal tornava a visão abominável. Pelo inchaço e odor, era possível afirmar que o defunto já estava ali por pelo menos três dias, embora essa avaliação não fosse muito simples devido às condições climáticas em uma favela de barracos de madeira, papelão e zinco.

A precariedade de edificações como essas compromete, e muito, a saúde de quem vive assim. Dormir em um barraco desses é como dormir ao relento. O calor do dia é insuportável e não há proteção para o frio da noite.

Por esse motivo, o defunto poderia estar ali há apenas um ou dois dias e o clima quente do dia aliado a fatores biológicos podem ter acelerado o processo de putrefação de cadáver.

Após o impacto inicial, os policiais começaram a avaliação da cena até a chegada dos peritos embora esse tipo de trabalho em região tão periférica, nunca tivesse a devida atenção da polícia científica. O grosso do trabalho ficaria para a P.M. mesmo e, às vezes, as coisas eram resolvidas sem burocracia…

Almeida observava tudo com asco e não sabia como agir, pois nunca tivera a má sorte de trabalhar nesse tipo de ocorrência. Só vira cadáveres alvejados nas ruas até então. Suicídio era novidade.

Eles analisaram as condições do corpo e buscavam outras coisas como armas, drogas, objetos roubados, no entanto esse trabalho alguém já tinha feito.

O corpo estava no cômodo principal que tinha cerca de quatro por dois metros e servia de quarto e sala.

Havia também uma pequena cozinha de dois por dois metros. Nela havia um pequeno frigobar que continha apenas uma garrafa com água que, pela cor amarelada, se via que era imprópria para o consumo.

Sobre a mesa, havia um fogão de duas bocas onde fora cozida uma porção de arroz e que ainda conservava os pequenos furos do preparo.

Os policiais não viram mais nada. Pegaram patos e talheres que jaziam secos sobre um escorredor apoiado em uma bacia sob a mesa.

− Rapaz, arroz gostoso! – disse um cabo de nome Siqueira já provando uma boa colherada – Nossa, eu estava morrendo de fome.

Almeida ficou atônito com a cena. Aquele cheiro nauseabundo e outro comia o arroz do defunto. De repente o sargento de nome Augusto, policial de maior patente, tomou o prato do soldado com autoridade.

− Deixa eu experimentar.

Almeida não esperava aquela reação dos seus superiores e tentou assimilar a vergonha alheia que sentia. Acabou provando um pouco do arroz também, pois queria a confiança do grupo.

Eles comiam distraídos quando foram surpreendidos pelos outros na sala.

− Sargento Augusto, Ciqueira! Vêm ver isso!!!

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