Pensares

Dois amigos caminham juntos de volta para casa. Acendem um fumo que passam de um a outro e se vão a conversar no caminho, a pé, de volta pra casa…

– Existe alguma situação em que você observa e pensa: ‘Nesse sentido sou criança’? – Diz o de touca preta com um ar pensativo.

– Como assim? – Responde o de mochila sem entender.

– Ah, sei lá! De pensar que em alguns pontos ainda é criança. – Tenta argumentar com cara de quem não sabe se fazer entender…

– Mas por não saber fazer alguma coisa?  – Arrisca novamente com cara de quem já estava entendendo…

– Aí vai do que você considera ser criança. – O outro com sorriso no rosto e ar de mistério, como quem gerou uma dúvida…

– Eu acho que não. – Cético…

– É que eu tenho momentos em que ainda me acho criança. – Retruca desconfiado de não ter gerado a dúvida…

– Então, acho que eu não tenho não. Isso é você buscando de alguma maneira uma segurança. Isso é questão de uma energia acumulada de acordo com o que você aprendeu, ou desenvolveu, enfim… A partir do momento em que se percebe essa mudança de zonas, chama-se amadurecer. É sair da zona de conforto, inverter essa energia e fazer algo que te tira dessa suposta segurança. Em outras palavras, fazer algo novo, se arriscar. – Termina com a expressão confiante de quem sabe o que diz.

– Entendi! – Pensa com olhar sério e compenetrado. – Reflete só para si: A cidade, sobretudo nessa periferia da qual não me sinto pertencente, é toda cinza. As ruas se apresentam hostis, os becos e esquinas assustam, não importando o grau de sua iluminação. Um jogo de polícia e ladrão em que você não pertence a nenhum dos lados e se tem medo dos dois. Eu quero curtir a noite, mas ao mesmo tempo quero, sim, me sentir seguro. Eu gostaria de poder passar despercebido e só analisar as coisas ao meu redor. Retomando a fala: – Ainda assim há momentos em que eu não só me sinto ser criança, como eu quero ser criança. – Diz com uma voz confiante e sorriso amistoso.

– Isso é você na sua zona de conforto. – Um rosto ameno e analítico, livre de críticas, com a boca torta como quem dissesse o óbvio.

– Pode ser! Acho importante ser criança. Te livra de alguns preconceitos.

Fecha a cena os dois com expressões de talvez e ares receosos.

Nesse ínterim, num bar logo à frente é visto um homem gordo avermelhado, estatura mediana e braços largos apontando o dedo para um outro rapaz de porte médio, alto, cabelos enrolados para cima, uma calça jeens e camisa xadrez e o rosto com uma maquiagem de palhaço borrada, mas que ainda ressaltavam as bochechas vermelhas, um lápis preto com símbolos que lembravam o feminino e masculino em cada olho e uma ponta de nariz sem maquiagem, provavelmente onde se encaixava a ponta do nariz de palhaço. O primeiro gritava enfurecido: Você tem que crescer, onde já se viu! Você só pode estar de brincadeira. Você é mesmo um palhaço! Já se deu conta que é um adulto?

O segundo apenas mantinha um olhar cabisbaixo e parecia sentir cada interrogação como um golpe deferido em seu peito.

Os dois amigos se entreolharam, era justamente aquele ponto que se separavam, cumprimentaram-se com um abraço e com olhares confusos e reflexivos de um pro outro, sorriram e partiram…

 

Felipe Cruz

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