Histórias de buteco

            Vejo muitos fiéis dizer que viram coisas incríveis acontecer na igreja. Eu, entretanto, nunca vi nada de especial na época em que frequentava. Foi no bar que tive contato com uma experiência sobrenatural.

            Lá estava eu, desolado pelos acontecimentos que desestruturaram minha família. Saí sem rumo e sem direção, conversando com o que chamamos de Deus, ou sozinho se bem preferirem. Quando me dei conta, estava num conhecido boteco, ali sentei, na esperança de encontrar algum chegado e distrair a minha mente.

            Comecei com apenas uma cerveja, pra parecer mais amistoso, mas minha cara era de pura depressão, e as pessoas não se sentiam a vontade de estar por perto. Não estava no clima de puxar assunto, desejava que alguém até a mim viesse não para eu tratar dos meus problemas, poderia ser até dos problemas dela, mas ninguém ali sentava.

            Absorto em pensamentos decidi falar novamente com Deus (ou sozinho). E pedi que aparecesse alguém que falasse comigo só por falar. Nesse instante já estava tomando um bom e velho conhaque. Não havia mais porque esboçar simpatia, pensei.

            Quando um sujeito negro, alto, bem vestido e com rosto amistoso vem em minha direção. – Pronto! Vem perguntar se pode pegar uma cadeira. – Imaginei já balançando a cabeça indignado.

            Assim que o rapaz chegou, sem ao menos conseguir terminar a frase direito, já disse rabugento – Pode claro que pode! – E sorri amargamente. Então ele olhou com cara de exclamação e disse – Que bom que deixou, não queria sentar numa mesa sozinho. – E acomodou-se ao meu lado.

            – Me desculpe! Tive uma má impressão. Logo imaginei que só iria pedir uma cadeira.

            – Veja! Eu comecei a frase pedindo que me cedesse uma cadeira. Natural ter entendido erroneamente.

               Mas que cara esnobe, pra que essa forma tão erudita de falar? Blá blá blá… – Refleti enquanto o encarava. Mas finalmente tinha companhia e não queria espantá-lo devido meu mau humor.

            – Fique a vontade! – Disse cordialmente esboçando um sorriso nitidamente falso pelo que me corrompia, mas com intuito verdadeiro por querer que ele ficasse ali.

            – Pois bem, cá estamos. Espero que estejas melhor.

            – Como é que é? Como assim espera que eu esteja melhor? Afinal, quem é você? Já nos vimos antes? – Disse abruptamente desconfiado e um tanto espantado.

            – Sou o que procurava! Um alguém pra que possa conversar. – Disse sem nenhum pudor.

            – Olha, já é tarde e eu estava de saída. Não me leve a mal… – Fui interrompido com os seus dizeres.

            – Sei o quanto é difícil lidar com essa situação. Mas tenho diversas maneiras de auxiliá-lo.

            – Espera um pouco aí! Do que você está falando? – Vociferei atordoado, mas nada o fazia parar de me ignorar e continuar falando.

            – Você tem que a priori se acalmar, deixa que os ânimos de seus familiares serenem. Só aí deve demonstrar com passividade que tudo pode se ajeitar.

            – O cara! Você está me escutando? Mas do que é que você está falando? Eu nem te conheço e fica aí se fazendo de terapeuta, dono da verdade? – Bradei pela última vez. E percebi que ele não iria tirar o sorriso do rosto, nem mesmo parar de falar daquela maneira polida e soberba.

            O jeito foi ouvir, mesmo que a contragosto, o que ele tinha a dizer. Confesso que foi se tornando agradável e esclarecedor o que ele estava falando. De repente tudo começou a fazer sentido. Eu já era um sujeito alegre e confiante com um copo de uísque nas mãos. Juntamente a ele confabulei “N” maneiras de resolver as situações mais conflituosas de minha vida. Principalmente aquela que me afligira aquele dia.

            Quando me dei conta, o bar estava ficando vazio. Disse então ao sujeito que deveríamos nos encontrar mais vezes e pedi licença para pagar a conta e ir ao banheiro.

            No balcão pedi ao garçom que cobrasse o que eu e o sujeito negro havia consumido.

            O garçom disse duvidoso – Qual sujeito negro senhor?

            – Aquele que está sentado na mesma mesa que eu, oras! – Disse indignado já sentindo um preconceito.

Ainda mais perplexo diz o garçom – Mas senhor, não há ninguém na mesa em que estava.

            – Como assim não há ninguém!? – E quando olhei pra mesa, de fato, não havia mais ninguém ali. – Fiquei boquiaberto e logo indaguei – Mas você num viu pra onde foi o sujeito que conversou comigo a noite toda?

            O garçom um pouco sem graça acabou por me dizer que passei a noite sozinho e falando comigo mesmo. Que me servira bebidas e refrigerantes, mas que eu não estivera com mais ninguém…

            Alguns dizem ter sido a bebida. Outros dizem que eu posso ter enlouquecido. Já afirmaram ser um anjo enviado dos céus. Ou até mesmo o próprio Deus em pessoa. Seja lá o que ocorrera naquela noite. O homem negro me deu soluções pra ajustar meus problemas. E elas de fato foram funcionais. Tenho certeza que não chegaria àquelas conclusões sozinho.

            Seja lá o que aconteceu. Tenho certeza que esse “alguém” me amparou naquela noite.

 

Felipe Cruz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s