Contos da cidade cinza: Esquizofrenia da cidade grande

– Vamos nesse aqui mesmo.

– Ali pro fundo?

– É passa aí, passa aí. Pode ser.

– Daqui não dá mais.

Será que ele está se masturbando? Não pode ser.

Como ela, como ela parece? Acho que esta constrangida. Encostada na janela, recolhida com um olhar de olheiras lilases, mas olhos atentos, fixos num ponto no infinito.

– Mas então você foi no festival?

– Fui sim.

– Que você achou?

– Muito louco…

Espera, é nele que tenho que reparar. Desde que entrei me olhou fixamente, um olhar frio, sem alma, nervoso, até que por ali parei… O boné, esse boné, um ângulo bem escolhido, tem até a marca vermelha na testa de sangue prensado, que atesta o boné não sair do lugar, esconde seu olhar. Daí eu só consigo imaginar…

– Eu fui ver los madrugas, depois fiquei vendo o palco de arte circense. Aí dei um tempo de descanso pra mim até o show do Quase Kinem que foi do caralho. Em qual você colou?

– Acabei indo pro Freezer.

Ela está respirando mais rápido?

Sua mão, de unhas longas vermelhas, arranhando seu pescoço como se sentisse frio… Mas está frio.

Mas pode ser agonia, de ser observada… Ow caralho! É esse babaca que tenho que analisar.

– Mano, os shows foram bons, apesar de nos Bombeiros do Sol ter tido falhas no som.

– Acho que nem reparei.

– Pode crer, Os Casulos, pra variar, atrasaram. Mas disseram que dessa vez foi culpa do som.

– Uhumm…

Porque essa mão forte apoiando a mochila sobre as pernas e embaixo da mochila sua mão direita se encontra? Será frio? O braço dele está se mexendo? Só eu que vejo isso?

Falo alguma coisa? Olho pra você, mas você não me olha, me diz se precisa que eu faça alguma coisa!? Meu amigo não se ligou?

– O festival foi bem organizado, limpo, com a ideia de carro compartilhado pra ficar mais barato.

– Mas não podia entrar nem com água, achei um absurdo.

– É! Lá dentro os preços deveriam mesmo ser mais acessíveis.

– Nem comi! Mas apareceram uns vinhos.

Calma, estou ficando louco, tenho que parar com a bebida, ou beber menos…

Mas ela parece desconfortável, seus lábios finos e bem desenhados parecem se retorcer de repúdio. Esse braço mexe ou não mexe delicadamente? Tem um cuidado… Será que eu não o intimo mais?

Chega! Vou perguntar se ele esta se masturbando. Continuar lendo

Brasileiros e Brasileiras! – cap.5

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 5

Um Plano

Às nove horas da noite, a fábrica funcionava a todo vapor e o rapaz entrou na área da ferramentaria procurando por alguém que não estava lá. Quando se virou, deu de cara com um negro alto e magro que olhou furtivamente para os dois lados e disse:

− E aí, Ricardo.

O rapaz tomou fôlego tentado disfarçar o susto e respondeu:

− E aí, Chico. Continuar lendo

Brasileiros e Brasileiras! – cap.4

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 4

Favela

Os policiais Almeida e Teles subiram o morro de uma favela, guiaram a viatura o quanto foi possível e, em determinado ponto, encontraram outras cinco viaturas.

Foram obrigados a estacionar ali e continuar o trajeto a pé, pois não era possível transitar com os veículos pelas estreitas vielas até o ponto do morro onde ocorrera o suposto suicídio.

Almeida tinha a sensação de que eram vigiados e sentia um pouco de medo. Os outros onze policiais, já acostumados, caminhavam naturalmente pouco concentrados com a operação. Continuar lendo

Brasileiros e Brasileiras! – cap.3

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 3

Metalmax

O rapaz caminhava pensativamente em direção à fábrica onde trabalhava. Ainda refletia sobre as palavras do pastor que ecoavam em sua mente: “Adore a ele que mora no céu e cuida de você!”.

Quando chegou aos portões da firma, ficou tenso, hesitou um instante, mas entrou como se se entregasse à danação eterna.

No relógio de ponto, bateu seu cartão e conferiu as informações: 20h42min – 14/12/1989. Isso já era um hábito comum. O patrão gostava de errar para economizar na folha de pagamento. Continuar lendo

Brasileiros e Brasileiras! – cap.2

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 2

Polícia

A viatura da polícia militar seguiu preguiçosa fazendo seu trabalho de ronda na região do Jardim Ângela, zona Sul de São Paulo.

Dirigia o carro o soldado Jorge Almeida, rapaz de 22 anos que entrara para a corporação há um ano e meio, muito mais por falta de opções do que por vocação. Situação comum no presente governo Sarney*. Continuar lendo

Brasileiros e Brasileiras! – cap.1

Brasileiros e Brasileiras!

Por Luís René de Melo

Capítulo 1
Céu e Deus

O anoitecer visto do pé do morro deitava uma vermelhidão fluida e hostil.

No cruzamento, alguns carros esperavam sua vez de seguir no vermelho enfadonho do farol, outros seguiam apressadamente na outra direção, enquanto uma viatura da polícia ia devagar.

O burburinho constante seguia lento e um rapaz observava curioso o culto do templo evangélico na esquina apesar do forte calor que desencorajava qualquer passeio, menos para quem tem que trabalhar.

– Levantem as mãos para o céu comigo – ordenou o pastor – Continuar lendo

Folhetim Peleja!

Fala, galera!

A equipe do Peleja Cultural vem por meio desta humildemente anunciar uma grande novidade!

Um projeto grande no tamanho, longevo na intenção e fruto de muito trabalho.

É o “Folhetim Peleja!”

Este novo projeto tem por objetivo apresentar aos nossos amigos internautas uma história de ficção, um romance.

Aliás, primeiro romance de um tímido autor paulistano desconhecido, mas muito entusiasmado: Luís René de Melo.

O romance se intitula “Brasileiros e Brasileiras!”

“Brasileiros e Brasileiras!” é um romance policial que narra fatos ocorridos em dezembro de 1989 durante a transição do governo Sarney para o governo Collor.

O livro conta a história de um malfadado assalto a uma fábrica decadente na zona sul de São Paulo cujo dono, viciado em cocaína, vem a falecer. Paralelamente a isso um curioso caso de suicídio em uma favela do Jardim Ângela chama a atenção de dois policiais e amigos, um PM e um civil um tanto atrapalhados e muito pouco conceituados no ambiente de trabalho.

O entrecruzamento desses fatos resultará em um surpreendente final que trará uma leitura muito verossímil do que foi o Brasil dos anos 80.

Luís René de Melo é formado em física e filosofia.

 Atua como jornalista, tradutor, ensaísta e, atualmente,

é professor universitário de Filosofia convidado nos EUA.

Leia o capítulo 1 – Clique aqui!